1) Perfil
Entrevista com Arnóbio Moreira Felix: médico e mágico
- Quem é Arnóbio Moreira Félix – Bill Morélix (idade – formação – família)?
Olá! Agradeço muito esta oportunidade de estar com vocês, do Jornal da SBOT, nesta aprazível entrevista.
Sou natural de Timóteo – MG e tenho 46 anos. Sou de família simples, de classe média, e sempre estudei em escolas públicas. Ao todo, somos oito irmãos. Mudei-me para Belo Horizonte aos 14 anos para cursar o segundo grau e aos 18 anos me ingressei no curso de Medicina, na UFMG. Graduei-me em 1992 e fiz Residência Médica em Ortopedia, com sub especialização em cirurgia do pé e do tornozelo. Fiz uma Pós Graduação na FGV, em Gestão de Empresas na Área de Saúde.
- O que o levou a se interessar pela mágica?
O meu interesse pela Arte Mágica vem da infância. Sempre gostei de circos, shows artísticos em geral e números com cartas de baralho. Não havia nenhum outro mágico (nem médico) em minha família e o interesse foi por minha iniciativa mesmo. Comprava “caixas de mágicas” pelo Reembolso Postal, em uma época em que o acesso a informações era muito difícil. Acredito que toda criança gosta de mágicas e eu, por minha vez, gostava a ponto de desejar ser um daqueles artistas, que me fascinavam e me encantavam, cada vez que eu os assistia, no circo ou na televisão.
- Quando começou a fazer truques de mágica?
Por volta dos 12 anos de idade, eu aprendi os primeiros números, com cartas de baralho. O interesse foi tanto que passei a fazer uma busca ativa para novos efeitos. Quando eu ouvia dizer que alguém fazia algum sortilégio com cartas ou outros objetos, me empenhava em conhecer aquela pessoa e me esforçava para aprender também. Os próximos passos foram as aquisições pelo Reembolso, já citadas. Quando cheguei em Belo Horizonte, em 1982, conheci vários “Mágicos de Rua”, aqueles artistas ambulantes, muito talentosos, e que fazem os seus shows nas praças das grandes cidades. Naquele momento o “mosquitinho mordeu pra valer” e eu sabia que não deixaria mais a paixão pela Arte Mágica. Com eles eu aprendi novos efeitos e adquiria, aos poucos, os números que marcaram o início do meu arsenal. Somente aos 17 anos é que eu conheci a primeira loja de artigos mágicos (Castelo das Mágicas), em BH e aí sim, a atividade tomou mais consistência e eu passei a ter acesso a cursos específicos, associações de mágicos e ao infinito universo que a Arte Mágica proporciona. Aquele momento coincidia com o ano em que eu fazia Pré Vestibular e, meses depois, me aprovei no vestibular para medicina, no momento em que a mágica já corria em minhas veias e artérias.
- A medicina veio depois, aos 18 anos. Porque escolheu cursar Medicina já que com esta mesma idade iniciava apresentações profissionais de mágica?
O meu interesse pela medicina também veio da infância, embora não tenha tido nenhuma motivação específica. Como jogava futebol, nas categorias de base do time da minha cidade, eu já percebia a minha afinidade para algumas imobilizações e curativos, além de gostar muito das aulas de ciência. Lembro-me também da morte de uma prima, mais nova do que eu, vitimada por um câncer linfático. Aquele fato impactou muito a minha vida e me despertou ainda mais o interesse em estudar medicina.
- Porque escolheu as duas profissões para atuar?
As coisas aconteceram naturalmente, com motivação permanente e sem maiores dificuldades. Me casei aos 21 anos, no sexto período do curso. Naquele momento, a despeito da permanente ajuda de ambas as famílias, os shows de mágica passaram a constituir uma renda consistente e crescente. Em pouco tempo, eu já pude agradecer à ajuda financeira que vinha do meu pai e do meu sogro. Aos 24 anos veio a graduação em medicina, mas eu nunca cogitei a hipótese de parar de fazer mágicas. Ao contrário, sempre investi em ambas as profissões, com cursos, congressos, associações de classe e aquisição de novos livros e equipamentos. Fiz e faço muitos shows beneficentes e o meu maior tributo é, sem dúvida, a alegria das plateias.
- Como faz para conciliar as atividades?
Costumo dizer que ser médico me torna um melhor mágico e ser mágico me torna um melhor médico. Vejo muita sinergia e sintonia entre as atividades. Em um primeiro momento, dedicava os fins de semana às mágicas e a atividade médica seguia o seu fluxo normal. Houve sim, momentos de dificuldade para adequação de agendas e chegou uma hora em que eu tive que declinar da traumatologia. Conciliar atendimentos de Pronto Socorro, cirurgias de urgência e escalas de sobreaviso foi ficando difícil, na medida em que as demandas para shows e viagens artísticas iam se tornando mais frequentes. Atualmente, só realizo cirurgias eletivas e, felizmente, os convites artísticos acontecem com uma antecedência que me permite adequar a minha agenda, sem grandes dificuldades.
- Atualmente, como são as suas atividades como médico?
Continuo trabalhando muito. Atendo consultório ortopédico em cinco turnos da semana, opero em duas manhãs, participo da Preceptoria de um Serviço de Ortopedia, em BH (Hospital Socor), sou Professor Universitário de Semiologia Ortopédica e contribuo na SBOT – MG como Examinador na CET e como membro efetivo, da atual Gestão, da CEC. De quebra, integro o Conselho Editorial do Jornal da Associação Médica Brasileira (JAMB), por ser um apaixonado por literatura.
- Quais são os truques de mágica que você mais executa e gosta?
Gosto de vários estilos dentro da Arte Mágica. Adoro fazer o que chamamos de Close – up, que é a magia de proximidade, onde utilizamos pequenos objetos como cartas, moedas, palitos, cordas etc, para executarmos uma infinidade de efeitos mágicos. Neste estilo existe a possibilidade de improvisações e isso sempre agrega valor ao artista mágico. Não atuo profissionalmente neste estilo, mas me identifico muito com ele e sou demandado em encontros informais, reuniões de trabalho, nas folgas dentro do hospital etc. Atuo profissionalmente com a magia clássica, onde o mágico está trajado a caráter e utiliza vários elementos cênicos como música, números de maior visual, magia argumentada, números com animais e as grandes ilusões. Nos últimos oito anos entrei para o mercado das mágicas corporativas, através de Palestras Motivacionais, recheadas de mágicas e de humor e me encontrei, completamente, nessa atividade.
- Você também dá palestras motivacionais? Quais são os temas?
Sim. Este segmento tem sido o meu maior foco, em função da possibilidade de conciliar os efeitos mágicos com a informação, ajustados às necessidades das empresas, faculdades ou instituições de classe. Como eu tenho um MBA em Gestão e gosto muito de estudar vários temas corporativos, desenvolvi palestras sobre Liderança, Fidelização de Clientes, Qualidade de Vida, Segurança Ocupacional e algumas de temas médicos específicos.
- Você faz truques de mágica ou usa a mágica para ajudar no desenrolar das suas consultas?
Raramente o tempo é suficiente, na correria do nosso dia a dia, para fazer mágicas dentro do consultório. É claro que isso acontece, mas em uma frequência menor do que eu gostaria. Tenho sempre no bolso, na maleta ou na gaveta, alguns efeitos mágicos para divertir e agradar os clientes. O viés é mesmo a falta de tempo. Porém, quando é possível, vivencio exitosas experiências junto aos clientes.
- Você já sofreu ou sofre preconceitos por ser mágico?
Sim. O modelo mental ainda dominante em nosso país é o que valoriza as carreiras retilíneas e os profissionais exclusivos desta ou daquela atividade. Ver um médico fazendo mágicas ainda incomoda algumas pessoas. Mas isto nunca me limitou, até porque, passado a fase de incredulidade das pessoas, a admiração sobressai. Sou muito feliz e realizado no que faço e, na medida em que os pacientes me conhecem mais, o vínculo afetivo sempre se fortalece. Eles percebem o pendor de sensibilidade que todo artista possui e quando se une à medicina praticada com arte, o resultado é extraordinário.
- Fale sobre a sua família. Eles sempre o apoiaram em ambas as carreiras?
Sim. Sempre apoiaram. Tantos os pais, quanto irmãos, sobrinhos, amigos próximos, primos e filhos, sempre estiveram presentes em todas as minhas ações artísticas, inclusive na organização e produção de grandes shows que, com frequência, empreendemos nos teatros de Belo Horizonte.
- Algum dos seus filhos tem interesse de seguir a carreira de mágico ou de médico?
Tenho três filhos, cujas idades atuais são 23, 18 e 16 anos. Nenhum se interessou pela carreira de médico, embora para o caçula ainda haja tempo para uma eventual tomada de decisão a esse respeito. Já o interesse pelas mágicas sempre foi flagrante e permanente, em todos eles. Todos têm o seu próprio arsenal, além de utilizarem livremente qualquer aparato do meu gabinete artístico. Tenho quase uma tonelada de equipamentos mágicos e tenho muito orgulho disso. Meu primogênito faz faculdade nos EUA e já se apresentou em várias ocasiões, naquele país. Os dois mais novos pertencem aos “Empreendedores da Alegria”, um grupo de alunos, sem fins lucrativos, que levam alegria e mágicas a várias instituições assistenciais.
- Quantas apresentações você já realizou? Por favor, cite as principais.
Houve anos em que eu fazia mais de 10 apresentações, por mês. Já atuei regularmente em restaurantes, festas de aniversário e em hotéis e isto, por si só, já garantia um grande volume de shows. Tenho mais de 1000 apresentações no currículo artístico e considero todas elas especiais e únicas. Já tive a honra de apresentar em palcos consagrados pelo Brasil afora, além de grandes clubes, congressos, restaurantes de grife e em eventos organizados ou homenageando grandes personalidades, do meio médico, artístico, cultural e jornalístico.
- Fique a vontade para acrescentar o que julgar necessário.
Minhas palavras são de agradecimento e honra. Acrescento que gosto de escrever poesias, enigmas, piadas, artigos e ensaios. Sou colunista da principal revista mágica brasileira (Revista Magi) e também escrevo, quando requisitado, para as revistas da SBOT Nacional, SBOT – MG e da ABTPé. Meu primeiro livro, de poesias (Acrósticos – Editora Manuscritos) teve a sua edição esgotada e acabei de escrever um livro sobre Gestão, comparando uma casa a uma empresa (Nossa Empresa, Nossa casa – Editora Folium e com prefácio do Dr Osvandré Lech).
MUITO OBRIGADO por esta oportunidade, apoio e carinho.
Arnóbio Moreira Félix
TEOT 10170