1. Você é médico, cirurgião, professor universitário, palestrante motivacional, autor de livros e mágico. Além de excelente pai. Como conciliar tantas atividades?

Gosto de uma frase que diz: “Tem tempo pra tudo quem não perde o tempo”. Não tenho nenhum superpoder. Acredito que o meu diferencial sempre foi a gestão do tempo. Entretanto, sei que sou procrastinador em muitos momentos, o que me desafia a otimizar ainda mais o meu tempo, minhas tarefas e ações.

  1. Em que uma atividade auxilia a outra?

Ser médico me torna melhor mágico e ser mágico me torna melhor médico. Primeiro porque ambas as atividades são verdadeiras artes e, como arte, comunicamos com a alma humana. Sem este aspecto humanitário, nenhuma delas irá prosperar. Outro fato relevante é a destreza manual envolvida em ambas, já que sou cirurgião e preciso de mãos hábeis nas duas atividades. Finalmente e não menos importante é o fato de que a arte mágica nos ensina, continuamente a ver os fatos com outra perspectiva, mostrando que existem caminhos e soluções que vão muito além do raciocínio linear e tradicional. Isso me ajuda enormemente no dia a dia da prática médica.

  1. Como o mágico auxilia o cirurgião?

Prestidigitação é o nome dado à destreza manual. Ainda quando era residente de ortopedia, há 30 anos, já ouvia dos cirurgiões experientes: “ter o Arnóbio como auxiliar na cirurgia é muito bom”. Ou seja, como sou mágico desde a adolescência, pude constatar os benefícios da destreza manual, rapidamente, também no campo da cirurgia.

Ademais, sempre fui interessado em violão e toco minimamente, mas o suficiente para aprimorar a destreza manual.

  1. Como o mágico auxilia o palestrante?

Provavelmente eu não estaria no mercado de palestras corporativas se não fosse o fato de ser mágico. Aqui cabe uma consideração, qual seja, ser mágico é muito diferente de fazer mágicas. Qualquer interessado pode entrar na internet ou em uma loja de artigos mágicos, comprar um número de mágica e sair praticando aquele efeito. Isso está perfeito e é daí que surgem os novos artistas. Mas “ser mágico” é um estado de espírito, é ver o mundo com outra perspectiva, é carregar consigo uma atmosfera de algo misterioso, sem ser exotérico ou cafona. Ser mágico é extrair poesia em situações corriqueiras e é, claro, é um aprendizado constante.

O mercado de palestra, em tese, entrega conteúdo, seja informativo ou formativo. Existem ótimos e inúmeros profissionais para todas as temáticas. Como a minha formação básica é a medicina, penso que não me interessaria por esse mercado corporativo. É aí que entra a ludicidade. Existem muitos palestrantes que recorrem a ferramentas lúdicas para agregar valor às suas palestras. Música, teatro, ginástica laboral, dinâmicas as mais diversas, humor etc., são exemplos do que estou dizendo. Neste sentido, os efeitos mágicos contribuem, e muito, para a transmissão dos ensinamentos que queremos transmitir. A mágica diverte, relaxa, suaviza a palestra e promove, ao mesmo tempo, descontração e concentração para o conteúdo que está sendo transmitido. É uma combinação perfeita. Em geral, nos seminários ou congressos onde muitos palestrantes atuam, a palestra de abertura ou a de fechamento tende a ser com uma palestra lúdica.

A “dívida” do palestrante com o mágico é muito maior do que o contrário. rsrs

de onde veio o interesse pela mágica?

O interesse surgiu na infância. Sempre gostei de jogos, quebra-cabeças, desafios corporais, gincana cultural e coisas afim. Adorava os circos que tive a chance de assistir ainda na infância e adolescência, morando em minha terra natal, Timóteo, no Vale do Aço – MG. Fui aprendendo números com cartas de baralho e com objetos caseiros e, em 1982, aos 14 anos, quando fui fazer o segundo grau na capital mineira, foi que tive acesso a números de mágicas e quebra-cabeças que adquiria de ambulantes ou em feiras de artesanato. Em 1985 eu conheci a primeira loja de artigos mágicos – O Castelo das Mágicas – no Edifício Arcângelo Maletta, no Centro de BH. Ali foi, verdadeiramente, a minha imersão na linda arte, por muitos considerada a “rainha das artes”. A referida loja existe até hoje e, a partir dali, vieram cursos e mais cursos, congressos, associações e uma busca constante de aprendizado e inovações.

  1. Como manteve esse interesse a par das demais atividades profissionais?

Sempre dediquei energia em tudo que faço. O segredo realmente é gostar do que faz e otimizar o tempo. Nunca perco de vista as possibilidades de melhorar o gerenciamento do tempo. Nunca fui de assistir televisão (passei longos anos sem ter este equipamento dentro de casa), durmo menos do que a média das pessoas e sempre priorizei morar perto de onde trabalho. Sou ávido por leitura e, felizmente, não tenho nenhuma dificuldade em ler quando estou viajando de carro, ônibus ou avião. Digo isso porque ouço muitas pessoas dizerem que não conseguem ler nessas ocasiões.

  1. Qual a diferença entre as reações dos clientes do médico, Dr. Arnóbio e público que assiste à apresentação do mágico Bill Morélix?

A mágica é uma arte realmente encantadora. Ela diverte, interage, quebra a barreira linguística, quebra a timidez, cabe em qualquer ambiente e não tem contraindicações. Quisera ter tempo para fazer mais mágicas nas consultas e nos ambientes sociais que frequento. Isso quase nunca acontece. Mas, claro, em inúmeras vezes cheguei a fazer mágicas para pacientes de consultório ou no hospital. Se eles pedem, claro, terão uma palinha.

Vivenciei situações em que determinado cliente, ao saber que o médico dele é mágico, criou resistência, desaprovou ou até se frustrou com a informação. Acho isso natural, haja vista a pouca informação que ele ou ela tiveram a respeito. Na imensa maioria das vezes, isso se transforma em um encantamento e o relacionamento médico/paciente fica fortalecido. Quando atendo crianças a situação chega a ser milagrosa. Uma criança, fato comum, resistente à consulta ou a determinado procedimento, torna-se maleável quando vê o profissional fazendo alguma mágica e passa a ser proativa e cooperativa com o tratamento. Isso é mágico!

  1. A mágica tem público de todas as idades. O que contribui para isso?

A mágica estimula o raciocínio, tanto de quem faz quanto de quem assiste. Isso é muito nobre e precioso. Além do aspecto artístico, que envolve o mistério, o inexplicável, o divertimento e a interatividade, merece alta relevância o aspecto de estímulo à cognição e à neuroplasticidade. Merece citação o fato da mágica ser usada, em muitas partes do mundo, em clínicas de reabilitação, como poderosa ferramenta para terapia ocupacional, ganhos em motricidade e em cognição. Isso também é mágico!

  1. A mágica exige estudo, treinamento e aperfeiçoamento continuado como a cirurgia?

Sim, difícil mencionar e comparar. A responsabilidade de um médico, cirurgião ou não, é inquestionável e cabe a ele responder pelos seus atos prescritivos e procedimentos praticados. Isso requer estudos constantes, atualização, educação continuada, reuniões clínicas e permanente comprometimento. Entretanto, muitas das vezes, o que um médico especialista faz no dia a dia acaba caindo em um mix definido ou restrito de situações clínicas da sua especialidade. A gente vai a um congresso e volta com novos aprendizados, em geral, pontuais, como uma nova técnica cirúrgica, aquisição de instrumentais cirúrgicos que facilitarão o nosso trabalho no ato operatório, modernização nas técnicas de imobilização, novos fármacos etc. Ok, é assim que vamos avançando. Mas na mágica a situação é muito diferente. Mesmo estando na arte há quase 40 anos, o volume de aprendizado passa por realidades muito mais aceleradas. Chega a ser impressionante a vastidão de novos conhecimentos agregados continuamente. Exatamente por isso é que nas artes mágicas também vão se formando os especialistas nessa ou naquela área de atuação. Magia de palco, magia de salão, magia de proximidade, mentalismo, grandes ilusões, magia humorada, magia infantil (voltada para as crianças), magia juvenil (praticada por crianças), prestidigitação, escapismos, magia bizarra etc. A lista é imensa.

  1. Como conquistar e prender a atenção do público?

Isso constitui o nosso maior desafio. Temos que ter formação teatral, em oratória, em apresentação pessoal, em atratividade nos elementos cênicos, na boa escolha da trilha sonora, na boa equipe de trabalho etc. Ademais a essas questões cênicas, temos que ter ótimos números de entrada, que impressionem e que convença o público de que algo realmente bom vai acontecer. Em palestras, aprendi a regra do 1/30/3. Em um segundo o público já faz uma leitura do artista que acabou de entrar, em trinta segundos ele se convence ou não da qualidade do show que está assistindo e em três minutos ele já decidiu se aquilo será útil pra ele e se merecerá a sua atenção. Do contrário, ele sairá do auditório ou voltará a sua atenção para o seu smartphone.

  1. Porque associar a mágica às palestras motivacionais?

Creio que está respondido nas questões anteriores. Basicamente, como dito, as palestras lúdicas ocupam um lugar destacado no mercado, podendo ser um diferencial competitivo no momento em que um gestor vai contratar um palestrante para uma convenção.

  1. Há como associar a mágica à medicina?

Respondido na questão 2. Do ponto de vista logístico, deixei de dar plantões há mais de 15 anos para poder cuidar das demandas do palestrante, que pressupõem viagens e ausência da nossa base de trabalho. Não lidando com urgências, consigo conciliar a agenda de consultório, de cirurgias eletivas e de palestras, sem maiores conflitos.

  1. Além do aspecto de entretenimento, a mágica tem outros aspectos benéficos?

Creio que também foram respondidos.

 

Por fim, para o nosso querido leitor, informo que fui mágico de grandes hotéis e grandes restaurantes, por quase duas décadas. Fiz dezenas de shows em teatros, com bilheteria aberta ao grande público e com grande rede de apoiadores e patrocinadores. Reduzi o meu tempo para os eventos essencialmente voltados a shows de mágica. Já no mercado de palestras, realizo as mágicas no transcorrer das mesmas, com os benefícios alegados ao longo da entrevista. Como a essência de uma palestra é a entrega conteudística, busquei capacitações e fiz MBA em Gestão pela FGV, fiz Mestrado em Marketing Estratégico, na UCES, em Buenos Aires, curso de teatro, além de pós-graduação em neuroliderança. Os temas centrais de meu portfólio são: Liderança Servidora, Fidelização de Clientes, Atitudes Transformadoras e Segurança Ocupacional.

Lecionei em escola de medicina por oito anos, atualmente dou aula em pós-graduações e sempre estive envolvido com preceptoria, que é a formação de novos ortopedistas através do programa de residência médica.

Sou pai de quatro lindos filhos, avô de um neto, autor de quatro livros e, atualmente, sou Diretor do Sindicato dos Médicos de MG.

Belo Horizonte, 20/01/2024.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *